Psiconites — Larissa Benites

Pressão dos pais no esporte: quando incentivar começa a pesar?

O incentivo dos pais pode ser uma força importante no esporte. Mas o que acontece quando o atleta começa a jogar com medo de errar, decepcionar ou perder aprovação?

Jovem atleta de futebol olha para fora do campo enquanto adultos acompanham a partida ao fundo

Tem uma coisa que observo bastante acompanhando atletas jovens: às vezes, logo depois de um erro, o olhar sai do jogo.

Vai para o treinador, para o banco ou para a arquibancada. Como se, antes de voltar para a próxima jogada, o atleta precisasse descobrir uma coisa: como esse erro foi recebido por quem está olhando?

Foi só um erro? Meu pai ficou bravo? Minha mãe está decepcionada? Depois vão falar sobre isso? Preciso fazer alguma coisa agora para compensar?

Parece um detalhe, mas não é. Quando o atleta precisa administrar o jogo e, ao mesmo tempo, a reação de quem está assistindo, parte da atenção que deveria estar na próxima decisão fica ocupada com outra tarefa.

E é aqui que eu acho importante fazer uma distinção: este não é um texto contra pais que cobram.

Quem acompanha esporte de base sabe o tamanho da participação de uma família para que uma criança ou adolescente esteja ali. Tem horário reorganizado, treino, viagem, mensalidade, equipamento, alimentação, campeonato no fim de semana e, muitas vezes, um sonho que passa a fazer parte da casa inteira. Cobrar comprometimento, responsabilidade e dedicação não é necessariamente um problema.

A pergunta que me interessa é outra: quando essa expectativa começa a pesar para aquele atleta?

O problema não é querer acertar. É sentir que não pode errar.

No esporte, o erro é inevitável. Um atacante perde gol, um goleiro toma uma decisão ruim, um tenista erra uma bola fácil, um piloto faz uma volta abaixo do esperado. O atleta precisa aprender a olhar para o que aconteceu, ajustar e continuar.

Mas existe uma diferença importante entre jogar querendo acertar e jogar tentando, a qualquer custo, não errar.

No primeiro caso, a atenção consegue permanecer mais próxima da tarefa: onde está o espaço, qual decisão faz sentido, o que o jogo pede agora. No segundo, começam a aparecer outras perguntas: *“E se eu errar de novo?”*, *“Meu pai viu?”*, *“O que vão falar no carro?”*, *“Preciso compensar esse lance.”*

A literatura em Psicologia do Esporte ajuda a entender por que isso importa. Pesquisas com jovens atletas mostram que o clima motivacional criado pelos pais se relaciona a aspectos como autoestima, ansiedade de desempenho e motivação. Isso não significa que um pai cause sozinho a ansiedade de um filho ou que toda cobrança produza medo. Significa que, para um atleta jovem, a reação dos pais pode ter um peso especial porque eles não pertencem apenas ao esporte. Eles pertencem à vida.

Talvez seja justamente por isso que algumas frases ganham significados tão diferentes. “Você consegue fazer melhor” pode soar como confiança para um atleta e como “ainda não foi suficiente” para outro. O que muda não é apenas a frase; é toda a história que existe em volta dela.

Quando uma partida começa a dizer alguma coisa sobre o próprio valor

Essa é uma das partes que mais me chama a atenção no consultório.

Existem atletas que conseguem sair de uma competição dizendo: “Hoje eu joguei muito mal”. Ficam frustrados, claro. Querem rever o erro, treinar, melhorar. Mas a partida continua sendo uma partida ruim.

Para outros, o caminho é muito mais rápido entre “eu fui mal” e “eu sou ruim”. E, às vezes, aparece ainda uma terceira preocupação: *“será que meu pai continua olhando para mim do mesmo jeito?”*

Existe uma linha de pesquisa que estuda a chamada consideração parental condicional: quando aprovação e valorização são percebidas pelo jovem como mais disponíveis quando ele corresponde às expectativas. Em atletas adolescentes, essa percepção já foi associada a perfeccionismo e a um valor pessoal mais dependente da própria competência.

Isso é especialmente relevante no esporte porque quase tudo parece mensurável. Tem placar, convocação, titularidade, estatística, comparação, vitória e derrota. Se o atleta começa a usar essas mesmas medidas para responder quanto ele vale, o resultado deixa de falar apenas sobre o que aconteceu naquele dia.

Na minha prática, os atletas que vejo lidarem melhor com o erro não são necessariamente aqueles que têm pais que nunca cobram. Muitos têm pais bastante exigentes. O que parece fazer diferença é existir uma segurança por baixo da cobrança: jogar mal não muda a relação.

O pai pode não gostar da partida. A mãe pode achar que faltou dedicação. Pode existir uma conversa difícil. Mas o atleta não sente que precisa recuperar, junto com o desempenho, o orgulho, a aprovação ou o afeto daquela pessoa.

Isso dá uma liberdade enorme para competir. Porque errar continua custando uma jogada. Não precisa custar também o próprio valor.

Quando a arquibancada pesa mais do que deveria

Essa discussão ficou muito concreta aqui em São Paulo.

Em 2025, a Federação Paulista de Futebol determinou que as rodadas 16 e 17 do Campeonato Paulista Sub-11 e Sub-12 fossem disputadas com portões fechados. Foram 144 partidas sem público depois do aumento de ocorrências de violência e hostilidade nas arquibancadas. Naquele momento, a competição já somava 46 ocorrências; segundo a FPF, boa parte desses episódios partia dos próprios pais e responsáveis.

Talvez o dado mais importante, porém, não seja o número.

Na campanha lançada depois pela Federação, os depoimentos eram de atletas reais que disputavam o Paulista. Um deles dizia: “A gente tem muito medo de errar. Se erra, os pais xingam.”

É uma frase curta para uma questão bastante complexa.

A presença do adulto não fica necessariamente do lado de fora do campo. Em algum momento, ela pode entrar no jogo. O atleta passa a antecipar uma reação antes mesmo de o erro acontecer.

Isso não significa que pais atrapalham o esporte. Pelo contrário: pais são importantes demais para que o papel deles dentro da formação esportiva seja deixado ao acaso.

Leia a matéria da Federação Paulista de Futebol sobre a campanha “Pais de Castigo”.

O jogo acaba. Depois vem o carro.

Às vezes a pressão não acontece na arquibancada. Acontece vinte minutos depois.

O atleta entra no carro já sabendo que errou. Muitas vezes já reviu mentalmente o lance várias vezes, está frustrado e ainda tenta entender o que aconteceu. E então começa a análise: “Por que você não tocou aquela bola?”, “Eu falei que precisava entrar mais ligado”, “Você treinou isso a semana inteira”.

Talvez tudo isso precise ser conversado. A questão é se precisa ser conversado agora.

Uma pergunta de que gosto muito nesse contexto é simples: “Você quer falar sobre o jogo agora ou depois?” Outra possibilidade é deixar que o próprio atleta seja o primeiro a avaliar: “O que você achou do seu jogo?”. Não porque os pais não possam opinar, mas porque existe diferença entre conversar com alguém sobre a experiência dele e entregar imediatamente uma avaliação pronta.

E tem um ponto importante aqui: pais também sentem pressão. Eles escutam que o filho tem potencial, que aquela idade é decisiva, que o outro atleta já está em determinado clube, que precisa fazer treino extra, que algumas oportunidades não voltam. Investem dinheiro, tempo e expectativa. Não é difícil imaginar como o medo de *não fazer o suficiente pelo filho* pode acabar virando uma tentativa de controlar cada detalhe da carreira.

Por isso, não acho que esta conversa deva produzir culpa. Culpa provavelmente só cria mais pressão. Ela pode produzir curiosidade.

Quando meu filho joga mal, ele consegue chegar perto de mim ou já chega se defendendo? O clima de casa muda conforme o resultado? Quanto das nossas conversas é sobre futebol, tênis, kart, vôlei — e quanto é sobre todo o resto? Se ele decidisse parar amanhã, saberia dizer do que eu me orgulho nele além do esporte?

Essa última pergunta, para mim, vale bastante.

Talvez liberdade também faça parte da alta performance

Depois de vencer o Australian Open em 2024, Jannik Sinner falou sobre os próprios pais. Contou que pôde experimentar esportes diferentes, escolher o próprio caminho e que eles nunca colocaram pressão para que seguisse uma trajetória específica. Ao receber o troféu, desejou que mais crianças pudessem crescer com essa mesma liberdade.

É interessante ouvir isso de um atleta que chegou ao mais alto nível do esporte porque desmonta uma ideia muito comum: a de que, para formar alguém extremamente competitivo, é preciso transformar a casa em uma extensão do treinamento.

Talvez seja possível ensinar disciplina sem transformar amor em prêmio por desempenho. Cobrar comprometimento sem fazer do erro uma ameaça. Querer muito que um filho vença e, ainda assim, deixar muito claro que ele não precisa vencer para continuar ocupando exatamente o mesmo lugar dentro de casa.

Veja a fala de Jannik Sinner publicada pelo Australian Open.

Para assistir depois: *Ted Lasso* e o que continua jogando dentro do atleta

Se eu tivesse que indicar um episódio para continuar essa reflexão, seria **“Man City”, o episódio 8 da segunda temporada de *Ted Lasso***.

Depois de uma derrota dura do Richmond, a relação de Jamie Tartt com o pai invade o vestiário de uma forma impossível de ignorar. É uma situação mais agressiva e extrema do que a maioria das cenas sobre as quais estou falando aqui, mas mostra muito bem uma coisa: às vezes o atleta não está lidando apenas com a partida. Está lidando também com o que aquela partida significa dentro de uma relação importante.

Talvez seja essa a reflexão que eu levaria para o final.

Seu filho provavelmente já sabe que você torce por ele. Sabe que você quer vê-lo jogar bem, crescer e aproveitar as oportunidades que aparecerem. Nos dias bons, isso é fácil de sentir.

Talvez o que ele mais precise descobrir seja o que acontece nos dias ruins. Quando perde. Quando falha. Quando vai para o banco. Quando não corresponde. Quando aquele sonho parece um pouco mais distante.

Se nesses dias ele ainda encontra o mesmo lugar dentro de casa, o esporte pode continuar sendo um lugar em que ele tenta, erra, aprende e cresce — sem precisar usar cada partida para provar quanto vale.

Se quiser continuar essa leitura, escrevi também sobre medo de errar no esporte e ansiedade antes do jogo.

Se a pressão, o medo de errar ou a cobrança estão tornando o esporte pesado demais, conheça também como funciona o acompanhamento em Psicologia do Esporte.

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Larissa Benites Lima
Psicóloga · CRP 06/227003

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