A partida de Uno está quase terminando. Uma criança percebe que vai perder, acusa alguém de mudar as regras, empurra as cartas e anuncia: “Não brinco mais”.
Talvez, dez minutos depois, já queira jogar novamente. Mas quem estava por perto continua pensando: por que perder provoca uma reação tão grande?
Isso também acontece fora dos jogos. Uma criança desiste de um desenho porque não ficou como imaginava. Outra se irrita quando um colega termina primeiro. No esporte, há quem saia de uma partida convencido de que jogou mal, mesmo tendo feito várias coisas bem.
É tentador resumir tudo a “não sabe perder”. Só que essa frase descreve o que vemos, não explica o que aconteceu.
Não aceitar perder é normal na infância?
Sentir frustração ao perder faz parte da experiência humana. Na infância, habilidades como regular emoções, esperar, lidar com expectativas e recuperar-se de contrariedades ainda estão em desenvolvimento.
A reação precisa ser compreendida considerando idade, intensidade, frequência e contexto. Uma criança pode saber perfeitamente a regra de um jogo e ainda precisar de ajuda para lidar com a decepção de não vencer.
Isso não significa que qualquer comportamento seja permitido. Acolher a raiva não é aceitar agressões. É possível reconhecer o sentimento e manter limites claros.
O que perder significa para essa criança?
Duas crianças podem perder a mesma partida e viver experiências muito diferentes.
Uma pensa: “Que pena, quero tentar de novo”. A outra pode pensar: “Sou ruim nisso”, “vão rir de mim” ou “vou decepcionar meu pai”.
Não podemos saber o significado apenas olhando para o choro ou a irritação. Precisamos observar, perguntar e conhecer a história da criança.
Vale notar: ela reage assim somente quando perde? Também sofre quando erra, precisa esperar ou encontra uma tarefa difícil? Como os adultos lidam com seus próprios erros? Há comparações frequentes? A criança sente que só recebe reconhecimento quando acerta?
Essas perguntas não servem para procurar culpados. Servem para evitar uma explicação apressada.
O que é tolerância à frustração?
É a capacidade, desenvolvida gradualmente, de atravessar situações em que algo não acontece como gostaríamos. Não é gostar de perder, ficar indiferente ou engolir o choro.
É conseguir, aos poucos, sentir decepção sem precisar destruir o jogo, atacar outra pessoa ou desistir definitivamente da atividade.
Essa capacidade não nasce pronta nem é construída em uma única conversa. Ela depende de experiências repetidas, apoio adequado e oportunidades proporcionais à idade.
Quando perder parece dizer algo sobre quem a criança é
Existe diferença entre querer vencer e acreditar que é preciso vencer para ser bom o suficiente.
Algumas crianças começam a interpretar resultados como avaliações sobre seu valor: “perdi” vira “sou péssimo”; “errei” vira “não consigo fazer nada”.
Nesses casos, pode aparecer um comportamento que passa despercebido: a criança começa a evitar aquilo em que ainda não é boa. Recusa jogos novos, abandona tarefas cedo ou só participa quando acredita que vai ganhar.
A questão já não é apenas a derrota. É o espaço que o erro ocupa na imagem que ela constrói de si.
Como agir quando a criança perde e se descontrola?
No calor da situação, longas explicações costumam funcionar pouco. Primeiro, é importante garantir segurança e ajudar a reduzir a intensidade do momento.
Em vez de “é só um jogo”, experimente reconhecer o que aconteceu: “Você queria muito ganhar e ficou bravo”. Se houver agressividade, o limite precisa ser direto: “Você pode ficar bravo, mas não pode machucar ninguém nem jogar as peças nas pessoas”.
Depois, quando a criança estiver mais tranquila, é possível conversar sobre o que sentiu e pensar em outras respostas para a próxima vez.
Não é necessário transformar toda brincadeira em uma lição. Crianças também aprendem quando veem um adulto perder sem se humilhar, admitir um erro, tentar novamente e continuar se divertindo.
Devo deixar meu filho ganhar?
Em jogos adaptados à idade, facilitar uma rodada ou ajustar a dificuldade pode ajudar a manter o interesse. O problema é quando a vitória garantida se torna a única forma de participar.
Por outro lado, provocar derrotas repetidas para “endurecer” a criança também não ensina necessariamente a lidar com emoções.
O desafio deve ser possível, e o ambiente precisa oferecer espaço para tentar, errar e continuar. O objetivo não é fabricar derrotas, mas não fazer da vitória uma condição para brincar.
E quando acontece no esporte?
No futebol, vôlei, tênis ou qualquer outra modalidade, a derrota pode envolver mais do que o placar. Há expectativas do treinador, colegas, família e do próprio atleta.
Observe o que acontece depois de um erro: a criança consegue voltar para a jogada seguinte? Fica olhando para os responsáveis? Evita assumir decisões? Passa o restante do jogo tentando compensar o lance anterior?
Essas reações não permitem diagnósticos, mas podem ajudar a compreender a relação entre confiança, cobrança e desempenho.
Leia também: medo de errar no esporte e ansiedade antes do jogo.
Quando procurar psicoterapia infantil?
Uma derrota acompanhada de choro, isoladamente, não indica necessidade de terapia. Vale buscar orientação quando as reações são persistentes, muito intensas ou começam a prejudicar amizades, escola, brincadeiras, vida familiar ou participação no esporte.
Também merece atenção quando a criança evita sistematicamente desafios, demonstra sofrimento acentuado diante de pequenos erros ou apresenta agressividade recorrente.
Na psicoterapia infantil, brincar pode ajudar a compreender como a criança se relaciona com regras, espera, frustração, comparação e outras pessoas. A participação dos responsáveis também é importante, respeitando as necessidades e a privacidade da criança.
Conheça como funciona a psicoterapia infantil.
Uma pergunta para a próxima partida
Da próxima vez que uma criança perder, antes de concluir que ela “não sabe perder”, observe: o que parece ter sido tão difícil naquele momento?
A resposta pode não surgir imediatamente. Mas essa curiosidade abre mais possibilidades do que um rótulo.
Aprender a perder não é aprender a gostar da derrota. É descobrir que um resultado ruim não precisa definir quem você é.
Para assistir: Pequena Miss Sunshine
Em *Pequena Miss Sunshine* (2006), uma família atravessa situações desconfortáveis enquanto acompanha a participação de Olive em um concurso infantil. O filme não é uma orientação para crianças pequenas — é uma sugestão para os adultos, por conter temas e linguagem mais maduros.
Ele oferece uma pergunta interessante para responsáveis: quando dizemos que queremos que uma criança se divirta, quanto espaço realmente deixamos para ela não corresponder às nossas expectativas?
Referências
- Morris, A. S. et al. (2007). The role of the family context in the development of emotion regulation. *Social Development*, 16(2), 361–388. https://doi.org/10.1111/j.1467-9507.2007.00389.x
- Eisenberg, N., Spinrad, T. L., & Eggum, N. D. (2010). Emotion-related self-regulation and its relation to children's maladjustment. *Annual Review of Clinical Psychology*, 6, 495–525. https://doi.org/10.1146/annurev.clinpsy.121208.131208
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Larissa Benites Lima · Psicóloga · CRP 06/227003
Atendimento infantil, de adolescentes e atletas em São Bernardo do Campo e online, quando adequado. Se as dificuldades com frustrações estão afetando a rotina da sua família, conheça a psicoterapia infantil e entre em contato para conversar sobre o acompanhamento.
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