Psiconites — Larissa Benites

Seu filho desabafa com inteligência artificial. O que isso revela sobre a adolescência?

Pesquisa brasileira mostra que crianças e adolescentes já conversam com IA sobre emoções. O que famílias precisam compreender sobre escuta, privacidade e relações digitais?

Adolescente diante do celular, em um momento reservado no quarto

Uma pessoa chega em casa depois de um dia difícil. Não quer explicar tudo de novo, não sabe por onde começar e também não tem certeza de como alguém reagiria. Abre o celular, escreve uma pergunta e recebe uma resposta em segundos.

Para alguns adolescentes, essa conversa já não acontece apenas com amigos. Acontece também com sistemas de inteligência artificial.

A pergunta que essa cena provoca não é somente “meu filho está usando IA demais?”. É outra: o que torna mais fácil contar algumas coisas para uma ferramenta do que para uma pessoa?

Crianças e adolescentes brasileiros já conversam com IA sobre emoções?

Sim, e agora temos dados brasileiros para sair do campo das suposições.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, divulgada pelo Cetic.br em outubro daquele ano, identificou que 65% dos usuários de internet de 9 a 17 anos haviam utilizado IA generativa. Entre esses usuários, 10% relataram utilizar a tecnologia para conversar sobre problemas pessoais ou emoções.

A pesquisa entrevistou presencialmente 2.370 crianças e adolescentes entre março e setembro de 2025, junto de seus responsáveis. O percentual de conversas sobre emoções foi de 12% entre jovens de 15 a 17 anos e de 4% entre crianças de 9 a 10 anos.

Esses números não significam que 10% dos adolescentes brasileiros estejam substituindo psicoterapia por chatbots, nem permitem saber a intensidade ou a qualidade dessas conversas. Mostram, porém, que o espaço onde crianças e jovens procuram palavras para o que sentem está mudando.

Consulte os dados originais da TIC Kids Online Brasil 2025.

Por que pode parecer mais simples desabafar com uma máquina?

Uma conversa humana envolve muitas coisas ao mesmo tempo. Existe a possibilidade de discordância, de constrangimento, de alguém interromper, se assustar, aconselhar rápido demais ou interpretar uma frase de um jeito que não era o esperado.

Uma ferramenta de IA, por outro lado, pode estar disponível de madrugada, aceitar uma pergunta mal formulada, permitir apagar e reescrever a mensagem e responder sem demonstrar surpresa.

É compreensível que isso desperte interesse. Não precisamos presumir que todo adolescente que conversa com um chatbot esteja isolado, nem tratar sua curiosidade como um sintoma psicológico.

Mas a experiência também levanta uma questão importante: sentir-se ouvido por uma resposta automática não é a mesma coisa que construir uma relação de cuidado com outra pessoa.

A conversa com uma IA pode ajudar alguém a organizar uma pergunta ou buscar informações. Ela também pode conter erros, interpretar mal situações e responder de maneira inadequada a conteúdos sensíveis. A facilidade da interação, sozinha, não comprova que ela seja segura ou suficiente.

ChatGPT e os chamados “companheiros de IA” são a mesma coisa?

Não exatamente. Chatbots de propósito geral podem ser utilizados para estudar, escrever, pesquisar e, eventualmente, conversar sobre emoções. Já os chamados companheiros de IA são aplicações construídas especificamente para simular vínculos de amizade, romance ou proximidade afetiva, muitas vezes com personagens e interações contínuas.

Essa distinção ganhou relevância no Brasil em 22 de setembro de 2026, quando o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou uma nota técnica sobre riscos desses aplicativos para crianças e adolescentes.

Entre os pontos examinados pelo órgão estão o apego excessivo, a exposição a conteúdo inadequado e o tratamento de dados pessoais. A análise também discute as responsabilidades das plataformas à luz do ECA Digital.

A conclusão para as famílias não deveria ser “toda IA faz mal”. O mais útil é compreender qual ferramenta o adolescente utiliza, como ela foi desenvolvida, quais dados recolhe e que tipo de interação estimula.

Leia a nota divulgada pelo Ministério da Justiça.

O que a inteligência artificial pode oferecer — e o que ela não substitui?

Há diferenças entre pedir a uma ferramenta que explique uma emoção, solicitar sugestões de perguntas para uma conversa difícil e passar a depender exclusivamente dela para decidir o que sentir ou fazer.

Alguns usos podem ser pontuais e informativos. Outros pedem mais atenção, principalmente quando a interação começa a ocupar o lugar de todas as conversas significativas, envolve compartilhamento de informações íntimas ou recebe respostas que normalizam situações perigosas.

Não é necessário transformar essa diferença em uma disputa entre tecnologia e relações humanas.

O ponto é que um chatbot não conhece integralmente a história daquela pessoa, não assume as responsabilidades éticas de uma psicóloga e não substitui uma avaliação profissional. Tampouco pode garantir confidencialidade clínica apenas porque a conversa parece privada.

O adolescente precisa aprender a considerar limites, identificar erros, proteger informações pessoais e reconhecer quando necessita de apoio de adultos e profissionais.

Se meu filho conta coisas para a IA e não conta para mim, ele perdeu a confiança?

Essa conclusão pode ser rápida demais.

Adolescentes constroem privacidade, testam formas de expressão e escolhem diferentes interlocutores para diferentes assuntos. Nem todo silêncio em casa significa afastamento afetivo.

Ainda assim, a pergunta merece curiosidade. O que acontece quando seu filho tenta conversar? Há espaço para terminar uma história antes de receber uma correção? Ele consegue perguntar algo constrangedor sem que a primeira resposta seja uma bronca?

É possível que a IA seja procurada justamente por não exigir uma reação imediata de outra pessoa. Também é possível que o adolescente esteja apenas explorando uma tecnologia nova. As situações não são equivalentes.

Se a comunicação em casa ficou difícil, pode ser interessante continuar por este texto: por que alguns adolescentes param de contar coisas aos pais.

Como conversar sobre IA sem transformar o assunto em interrogatório?

Em vez de começar exigindo que seu filho mostre todas as mensagens, tente abrir uma conversa sobre a experiência.

Algumas perguntas possíveis:

Não existe uma frase capaz de resolver todas as situações. O objetivo é construir alfabetização digital e uma relação em que o adolescente possa pedir ajuda.

Também vale conhecer a política de idade, privacidade e segurança da plataforma específica; evitar compartilhar dados íntimos, imagens e informações de outras pessoas; e conversar sobre aquilo que nenhuma ferramenta deveria decidir sozinha.

Proteção não significa ausência de limites. Significa que os limites precisam fazer sentido, ser proporcionais e vir acompanhados de orientação.

Quando o uso emocional da IA merece atenção psicológica?

O simples fato de um adolescente conversar com uma ferramenta sobre sentimentos não estabelece um diagnóstico.

Entretanto, vale procurar orientação quando surgem sinais como isolamento persistente, sofrimento intenso, prejuízo no sono, conflitos que se agravam, abandono de atividades, forte dependência da interação virtual ou dificuldade importante para buscar ajuda fora da tela.

Também é necessário levar a sério relatos de violência, exploração, ameaça ou conteúdos de risco encontrados nesses ambientes.

Se houver risco imediato à integridade do adolescente, a prioridade é buscar atendimento de urgência, não aguardar uma sessão eletiva.

Para compreender melhor a relação entre tecnologia, rotina e comportamento, leia também meu filho adolescente passa o dia no celular: quando isso realmente vira um problema?.

Psicoterapia para adolescentes no ABC Paulista

Sou Larissa Benites Lima, psicóloga (CRP 06/227003). No PsicoNites, realizo acompanhamento psicológico para adolescentes, com atendimento presencial em São Bernardo do Campo (SP) e possibilidade de atendimento online quando adequado.

A psicoterapia pode ser um espaço para compreender relações, autonomia, comunicação familiar, emoções e outras questões que aparecem durante essa etapa da vida. O adolescente não precisa ser reduzido ao tempo que passa na internet — nem o celular precisa ser a explicação para tudo.

Conheça como funciona a psicoterapia para adolescentes no PsicoNites ou saiba como acontece o primeiro contato.

Perguntas frequentes

Conversar com ChatGPT sobre sentimentos faz mal?

Não é possível concluir isso apenas pelo uso. Importam o conteúdo, o contexto, a frequência, a privacidade e os efeitos da interação sobre a vida do adolescente. Uma IA pode fornecer informações, mas não substitui atendimento psicológico.

Devo proibir meu filho de usar inteligência artificial?

Antes de tomar uma decisão, é importante conhecer a ferramenta, verificar suas regras de idade e segurança e compreender como o adolescente a utiliza. Proteção e diálogo não são alternativas excludentes.

E se o adolescente disser que prefere conversar com IA a conversar com os pais?

Vale ouvir o motivo sem transformar a resposta em uma disputa pessoal. Pergunte o que ele encontra ali, explique os limites da tecnologia e mantenha canais de diálogo e apoio disponíveis.

Talvez a pergunta mais importante não seja sobre a tecnologia

Criamos sistemas capazes de responder a quase qualquer hora. Ao mesmo tempo, continuamos aprendendo a lidar com silêncio, vergonha, diferença de opinião e frustração nas relações humanas.

A inteligência artificial faz parte da vida contemporânea. A questão psicológica interessante não é fingir que ela pode ser retirada dessa história, mas investigar o que os adolescentes estão encontrando nela — e quais espaços de escuta ainda precisamos construir fora das telas.

Fontes e leitura complementar

*Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação psicológica individual.*

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Larissa Benites Lima
Psicóloga · CRP 06/227003

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