Você chama para jantar.
“Já vou.”
Dez minutos depois, chama de novo.
“Só um minuto.”
O celular está na mão no sofá, durante o almoço, antes de dormir, assim que acorda e, se pudesse, provavelmente também no banho.
Em algum momento surge uma pergunta que muitos responsáveis têm feito:
isso é normal da adolescência ou meu filho está passando tempo demais no celular?
A preocupação faz sentido. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais útil do que simplesmente contar quantas horas ele passa diante de uma tela:
o que esse celular está fazendo na vida desse adolescente?
Porque duas pessoas podem passar a mesma quantidade de tempo no celular e ter relações completamente diferentes com ele.
Uma conversa com amigos, uma aula, um jogo, três horas seguidas assistindo vídeos que a pessoa nem lembra depois ou passar a madrugada comparando o próprio corpo com o de outras pessoas não são exatamente a mesma experiência.
Por isso, para entender quando o uso começa a se tornar um problema, precisamos olhar não apenas para o relógio, mas para o que está acontecendo dentro e fora da tela.
Passar muito tempo no celular significa estar viciado?
Não necessariamente.
Existe uma tendência de chamar qualquer uso muito frequente de dependência.
“Meu filho é viciado no celular.”
“Ela não larga isso.”
“Essa geração não vive sem tela.”
Em algumas situações realmente existe uma relação problemática com o aparelho. Mas passar muitas horas conectado, sozinho, não é suficiente para explicar o que está acontecendo.
A American Psychological Association chama atenção justamente para isso ao discutir o uso de redes sociais na adolescência: seus efeitos não são iguais para todos. Importam o conteúdo acessado, a forma de utilização, as características daquele adolescente e o contexto em que ele vive.
O Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais por Crianças e Adolescentes, publicado pelo Governo Federal, também propõe que a discussão não se limite apenas a contar horas de tela.
Isso não significa que o tempo seja irrelevante.
Significa que ele é apenas uma parte da história.
Talvez a pergunta não seja “quanto tempo?”, mas “o que deixou de acontecer?”
Um jeito mais interessante de observar a relação de um adolescente com o celular é olhar para aquilo que continua — ou deixa de continuar — acontecendo ao redor dele.
Ele está dormindo bem?
Vai à escola?
Consegue estudar?
Mantém relações com outras pessoas?
Ainda pratica esportes, sai de casa, conversa, assiste a um filme ou participa das refeições?
Consegue deixar o celular de lado quando alguma coisa importante precisa acontecer?
Ou o aparelho começou, pouco a pouco, a ocupar espaços que antes pertenciam a outras partes da vida?
Essa diferença importa.
Um adolescente pode usar bastante o telefone e ainda manter uma rotina diversificada, vínculos significativos e capacidade de interromper o uso.
Outro pode começar a perder horas de sono, abandonar atividades, evitar encontros, faltar à escola ou experimentar um sofrimento muito intenso quando precisa ficar sem acesso.
Nesse segundo caso, talvez já não estejamos falando apenas sobre alguém que gosta muito do celular.
Existe uma relação que merece ser compreendida.
Alguns sinais merecem mais atenção
Mais importante do que encontrar um número exato de horas é perceber se o uso está produzindo prejuízos consistentes.
Vale prestar atenção quando aparecem situações como:
- dormir cada vez mais tarde porque não consegue interromper o uso;
- acordar durante a noite para verificar notificações;
- abandonar atividades que antes eram importantes;
- deixar tarefas e compromissos repetidamente por causa do celular;
- apresentar mudanças importantes no rendimento escolar junto de alterações na rotina;
- ficar cada vez mais isolado também fora das telas;
- tentar diminuir o uso e não conseguir;
- esconder ou mentir sobre quanto tempo permanece conectado;
- apresentar sofrimento muito intenso quando fica sem acesso;
- entrar constantemente em conflitos familiares por causa do aparelho;
- deixar encontros, refeições ou outras experiências sempre em segundo plano;
- apresentar mudanças importantes de humor relacionadas ao que acontece online;
- sofrer ou participar de cyberbullying, ameaças, exposição ou outras situações de risco.
Perceba que a pergunta muda.
Em vez de:
“Quantas horas ele ficou no celular?”
passamos a perguntar:
“O que está acontecendo com a vida dele enquanto isso?”
Às vezes o celular é o problema. Às vezes ele é o lugar para onde o problema foi
Imagine um adolescente que parou de sair do quarto e começou a passar quase todo o tempo no telefone.
É fácil concluir:
“Ele está se isolando porque fica no celular.”
Mas também é possível inverter a pergunta:
“Será que ele já estava se sentindo isolado e o celular se tornou o lugar mais fácil para ficar?”
As duas situações podem acontecer.
E diferenciá-las muda bastante a forma de intervir.
Talvez aquele adolescente tenha sido excluído de um grupo de amigos.
Talvez esteja sofrendo na escola.
Talvez tenha vergonha do próprio corpo e esteja evitando situações sociais.
Talvez os amigos dele estejam justamente dentro daquele jogo.
Talvez exista ansiedade.
Talvez ele esteja se comparando o tempo inteiro com outras pessoas.
Talvez esteja apenas vivendo uma parte importante da socialização contemporânea em ambientes digitais.
Ou talvez várias dessas coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo.
Por isso, retirar o aparelho pode até diminuir o número de horas diante da tela, mas não necessariamente responde à pergunta:
por que era tão difícil ficar fora dela?
O que ele faz no celular importa
Quando um adulto olha para um adolescente diante de uma tela, muitas atividades diferentes podem parecer iguais.
Mas não são.
Ele pode estar:
- conversando com o melhor amigo;
- assistindo a vídeos;
- estudando;
- jogando com colegas;
- criando alguma coisa;
- acompanhando pessoas que admira;
- tentando participar de um grupo;
- recebendo mensagens que o deixam desconfortável;
- comparando a própria aparência;
- sendo provocado;
- acompanhando discussões;
- tentando não ficar de fora do que os amigos estão vivendo.
A experiência psicológica muda dependendo daquilo que está acontecendo.
Além disso, muitas plataformas são construídas com recursos que facilitam permanecer conectado: notificações, rolagem contínua, recomendações automáticas e atualizações constantes.
Para um adolescente, em uma fase da vida na qual pertencimento, aceitação e relação com os pares costumam ocupar um espaço importante, isso pode ganhar um peso ainda maior.
Então perguntar apenas:
“Por que você fica tanto nesse celular?”
provavelmente produz uma resposta pouco útil:
“Sei lá.”
Talvez perguntas diferentes tragam informações melhores:
“O que você mais gosta de fazer quando está no celular?”
“Com quem você mais conversa?”
“Tem alguma coisa na internet que ultimamente está te fazendo bem ou te deixando mal?”
A conversa muda quando o objetivo deixa de ser apenas descobrir quanto ele usa e passa a tentar entender como ele usa.
E o sono?
Esse é um dos pontos que merece bastante atenção.
O celular pode não estar prejudicando toda a rotina, mas começar a invadir justamente o horário de descanso.
“Vou dormir” pode significar mais quarenta minutos assistindo vídeos.
Uma mensagem leva a outra.
Um vídeo leva ao próximo.
E quem pretendia dormir às 23h percebe à 1h da manhã que continua acordado.
O uso de dispositivos próximo ao horário de dormir pode interferir na rotina de sono, e orientações de saúde para adolescentes destacam a importância de preservar descanso, atividade física e outras experiências fora das telas.
Isso não significa que uma noite usando o telefone até tarde indique algum problema psicológico.
Mais uma vez, vale observar o padrão.
Dormir pouco começou a virar rotina?
Está difícil acordar?
A irritabilidade aumentou?
O adolescente passa o dia cansado?
O rendimento mudou?
O celular entrou em um ciclo no qual ele dorme tarde, acorda cansado, tem menos energia para outras atividades e termina o dia novamente no telefone?
Nesse caso, talvez conversar sobre sono seja muito mais útil do que iniciar uma discussão abstrata sobre “ficar demais no celular”.
Tirar o celular resolve?
Às vezes, colocar limites é necessário.
Mas existe diferença entre construir limites e transformar o telefone no centro de uma guerra dentro de casa.
Quando toda conversa começa com:
“Larga esse celular.”
“Você não faz mais nada.”
“Na sua idade eu…”
“Vou tirar isso de você.”
o adolescente provavelmente começa a defender o aparelho antes mesmo de conseguir pensar sobre a própria relação com ele.
E alguma informação importante pode desaparecer junto.
Adolescentes precisam de proteção e acompanhamento, mas também estão construindo autonomia.
O objetivo, ao longo do desenvolvimento, não deveria ser criar alguém que só consegue regular o próprio uso quando um adulto confisca o aparelho.
É ajudá-lo, gradualmente, a construir critérios para perceber o que faz bem, o que está prejudicando sua rotina e quando é hora de parar.
Então como colocar limites?
Não existe um combinado perfeito para todas as famílias.
Mas limites costumam ser mais compreensíveis quando deixam de ser acusações gerais e passam a ser acordos concretos.
Em vez de:
“Você precisa usar menos o celular.”
pode ser:
“Durante as refeições, vamos deixar os celulares fora da mesa.”
Em vez de:
“Você fica nisso até tarde.”
pode ser:
“Seu sono está ficando prejudicado. Vamos pensar em um horário para o celular sair do quarto.”
Em vez de:
“Você não desgruda disso.”
pode ser:
“Estou percebendo que você está dormindo menos e muito cansado de manhã. Quero entender o que está acontecendo.”
Também vale observar o comportamento dos próprios adultos.
É difícil construir uma casa em que o adolescente não possa olhar para o telefone durante o jantar enquanto os adultos respondem mensagens, conferem notificações ou trabalham com o aparelho ao lado do prato.
Limites costumam funcionar melhor quando fazem parte da dinâmica familiar — e não quando parecem uma regra criada exclusivamente para controlar uma pessoa.
“Mas quando eu tento conversar, ele não conta nada”
Esse é outro ponto importante.
Às vezes o responsável percebe uma mudança, tenta perguntar e recebe:
“Não aconteceu nada.”
“Tá tudo normal.”
“Não quero falar.”
Isso não significa necessariamente que não exista nada para contar.
Adolescentes também fazem uma espécie de cálculo sobre aquilo que vale a pena compartilhar.
Se contar alguma coisa significa imediatamente perder o celular, ouvir uma bronca, ter mensagens verificadas ou ver um adulto entrar em pânico, talvez determinadas experiências deixem de ser contadas.
Isso não significa que os responsáveis devam ignorar situações de risco ou abrir mão da proteção.
Significa apenas que a maneira como reagimos às primeiras informações influencia aquilo que será contado depois.
Se essa dinâmica parece familiar, vale ler também por que alguns adolescentes param de contar coisas aos pais.
Celular e escola também podem se misturar
Outro ponto importante é observar quando alterações no uso digital aparecem junto de mudanças escolares.
Um adolescente pode ficar acordado até tarde porque está usando o celular e, consequentemente, ter dificuldade para levantar.
Mas também pode começar a usar o telefone até tarde porque está angustiado com o dia seguinte.
Pode evitar a escola e encontrar no ambiente digital um lugar de distração.
Pode estar vivendo conflitos entre colegas que continuam depois que a aula termina, agora por mensagens e redes sociais.
Pode ter sido excluído de grupos.
Pode acompanhar conversas durante a madrugada porque sente que precisa estar presente para continuar pertencendo.
Ou pode estar apenas tentando não pensar no que acontecerá quando chegar à escola.
Quando recusa escolar e uso intenso do celular aparecem juntos, é importante evitar explicações rápidas demais.
Se isso está acontecendo na sua casa, pode ajudar ler também adolescente não quer ir à escola: o que fazer e o que pode estar por trás?.
Quando procurar acompanhamento psicológico?
Psicoterapia não precisa entrar na história simplesmente porque um adolescente gosta muito do celular.
O acompanhamento pode fazer sentido quando existe sofrimento ou quando essa relação começa a aparecer junto de outras dificuldades.
Por exemplo:
- isolamento crescente;
- conflitos familiares muito intensos;
- mudanças importantes no sono;
- dificuldades persistentes na escola;
- perda de interesse por outras atividades;
- dificuldade significativa para interromper o uso;
- sofrimento relacionado à aparência ou comparação social;
- cyberbullying;
- exposição a situações de risco;
- ansiedade intensa;
- mudanças persistentes de humor;
- dificuldade da própria família para compreender o que está acontecendo.
Na psicoterapia, o objetivo não deveria ser transformar a psicóloga em mais uma adulta dizendo:
“Você precisa largar esse celular.”
O telefone pode, inclusive, virar uma porta de entrada para compreender relações, pertencimento, identidade, autoestima, escola, família e aquilo que o adolescente ainda não encontrou outra forma de dizer.
Se quiser entender melhor o processo, conheça como funciona o acompanhamento psicológico para adolescentes.
Talvez o celular não precise ser o vilão da história
Existe uma cena bastante comum.
O adulto olha para o adolescente no celular e pensa que ele está se afastando do mundo.
Às vezes está.
Mas às vezes é justamente ali que ele está conversando, pertencendo, descobrindo, criando e tentando entender quem é.
Talvez a questão não precise ser reduzida a duas explicações:
“Celular faz mal.”
ou
“É assim mesmo, essa geração vive online.”
Podemos fazer perguntas melhores.
O que ele encontra ali?
O que acontece quando precisa parar?
O que está deixando de acontecer fora dali?
Como ele fica depois de usar?
Ele consegue escolher quando entrar e quando sair?
E, talvez principalmente:
quando o celular sai da mão, como está a vida que sobra?
Essa resposta provavelmente nos conta muito mais do que qualquer cronômetro.
Para assistir e pensar: *Oitava Série* (*Eighth Grade*, 2018)
Se você quiser continuar essa reflexão fora do artigo, minha indicação é Oitava Série, dirigido por Bo Burnham.
Kayla tem 13 anos e está atravessando aquele momento estranho da adolescência em que existe uma diferença enorme entre quem ela gostaria de parecer, quem consegue ser diante dos outros e quem sente que é quando ninguém está olhando.
As redes sociais atravessam essa experiência, mas o filme não transforma a internet em uma vilã responsável por tudo que acontece com a personagem.
E talvez seja justamente por isso que ele seja tão interessante.
O celular aparece misturado à necessidade de pertencer, ao medo do julgamento, à construção da identidade, à solidão e às tentativas de se aproximar de outras pessoas.
Ao assistir, vale prestar atenção não apenas em quanto Kayla usa as telas, mas em qual versão dela consegue existir dentro e fora delas.
É uma diferença pequena na pergunta, mas enorme para compreender a adolescência.
Referências
American Psychological Association. *Health Advisory on Social Media Use in Adolescence*. 2023.
American Psychological Association. Materiais e recomendações sobre uso de redes sociais e saúde mental de adolescentes.
Governo Federal do Brasil. *Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais*.
A24. *Eighth Grade*. Direção de Bo Burnham, 2018.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação psicológica individual.
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