Psiconites — Larissa Benites

Por que irmãos criados pelos mesmos pais podem ser tão diferentes?

Irmãos podem crescer na mesma casa e guardar experiências muito diferentes da infância. Entenda o que a Psicologia explica sobre comparação, papéis familiares, tratamento parental e ordem de nascimento.

Dois irmãos no mesmo ambiente familiar, cada um vivendo o momento de uma forma diferente

“Mas vocês foram criados do mesmo jeito.” Essa é uma frase que aparece muito quando dois irmãos contam versões completamente diferentes da própria infância. E, de certa forma, ela faz sentido: muitas vezes eles cresceram na mesma casa, com os mesmos pais, frequentaram a mesma escola, ouviram regras parecidas e compartilharam boa parte da rotina familiar. Ainda assim, quando começam a falar sobre como viveram tudo isso, as lembranças podem ser muito diferentes. Um se recorda dos pais como rígidos, enquanto o outro os descreve como tranquilos. Um sente que precisava dar conta de tudo sozinho; o outro lembra de ter sido muito protegido. Isso não significa necessariamente que alguém esteja lembrando “errado”. Significa que crescer na mesma família não é exatamente a mesma coisa que viver a mesma infância.

Na Psicologia, existe um conceito que ajuda a entender isso: o de ambiente não compartilhado. A ideia é relativamente simples. Mesmo dentro da mesma casa, irmãos vivem experiências que não são idênticas. Eles têm professores diferentes, amizades diferentes, momentos escolares diferentes, relações particulares com cada membro da família e formas próprias de interpretar aquilo que acontece. Além disso, os próprios pais também mudam ao longo do tempo. O primeiro filho pode encontrar pais mais inseguros, rígidos ou ansiosos; alguns anos depois, o segundo pode encontrar essas mesmas pessoas em outro momento da vida, com mais experiência, outros problemas, outra condição financeira ou outra dinâmica de casal. A literatura sobre desenvolvimento mostra há décadas que essas experiências não compartilhadas ajudam a explicar por que irmãos podem se tornar tão diferentes entre si, mesmo tendo crescido juntos (Plomin & Daniels, 2011).

Isso também ajuda a questionar outra frase muito comum: “Eu criei todos os meus filhos igual.” Na prática, isso é quase impossível, e nem sempre seria desejável. Crianças diferentes precisam de coisas diferentes. Uma pode precisar de mais ajuda na escola, outra de mais incentivo para falar; uma pede atenção o tempo inteiro, enquanto outra parece se virar sozinha. A Psicologia chama de tratamento parental diferencial as diferenças na forma como os pais se relacionam com cada filho. Elas podem aparecer na quantidade de autonomia, nas cobranças, nos conflitos, na disciplina e até nas demonstrações de afeto. Uma meta-análise publicada no *Psychological Bulletin* encontrou diferenças relacionadas a características dos filhos, gênero e posição na família. Em algumas dimensões, por exemplo, filhos mais velhos tendiam a receber maior autonomia (Jensen & Jorgensen-Wells, 2025).

Isso não significa que todo pai ou mãe tenha conscientemente um “filho favorito”. Significa que cada relação entre pai, mãe e filho é uma relação própria. O mesmo pai pode ser mais protetor com um filho, mais exigente com outro e confiar com mais facilidade em um terceiro. E cada criança também vai interpretar essas diferenças de uma forma. Uma meta-análise publicada em *Child Development*, com dados de 26.451 crianças e adolescentes, encontrou associação entre maior tratamento parental diferencial e mais dificuldades internalizantes e externalizantes, especialmente quando um filho recebia tratamento relativamente menos favorável do que o irmão (Jensen & Thomsen, 2024). Um estudo longitudinal publicado em 2026 também encontrou relação entre tratamento parental diferencial e qualidade da relação entre irmãos, mas reforçou que essa dinâmica é mais complexa do que uma explicação de causa e efeito: o modo como pais e irmãos respondem uns aos outros vai se reorganizando ao longo do tempo (Eckert et al., 2026).

Os lugares que cada um vai ocupando

Talvez ninguém sente os filhos no sofá e diga: “você vai ser a responsável”, “você vai ser o que dá trabalho” e “você vai ser a sensível”. Esses lugares costumam aparecer de forma muito mais sutil. Um filho começa a ser elogiado por ser independente, outro ganha atenção quando faz graça, um fica conhecido como aquele que “não dá trabalho” e outro como o mais difícil. Aos poucos, começam a surgir frases como “ela sempre foi mais madura”, “ele sempre foi mais complicado”, “você sabe que sua irmã é sensível” ou “ele se vira sozinho”. Muitas vezes são apenas descrições feitas sem intenção de limitar ninguém, mas podem acabar se tornando uma espécie de roteiro familiar.

Isso acontece porque, ao ouvir repetidamente quem ela “é”, a criança também vai aprendendo quem os outros esperam que ela seja. E nem sempre esses lugares são ruins. O problema aparece quando deixam de ser uma possibilidade e começam a virar uma obrigação. A filha responsável pode passar a sentir que não tem o direito de desabar. O filho independente pode ter dificuldade de pedir ajuda. Quem ficou conhecido como o engraçado pode aprender a melhorar o clima mesmo quando está mal. A criança “fácil” pode perceber que existe pouco espaço para dar trabalho. Às vezes, o que começou como uma característica termina funcionando como uma regra silenciosa dentro daquela família.

As comparações também participam dessa dinâmica. Algumas são evidentes: “seu irmão nunca fez isso” ou “olha como sua irmã consegue”. Outras vêm disfarçadas de elogio: “você é a madura daqui”, “seu irmão precisa mais da gente”, “você sempre soube se virar”. A questão não é transformar qualquer frase familiar em um problema, mas observar quando uma característica deixa de descrever a criança e passa a definir aquilo que ela sente que pode ou não pode fazer.

E a ordem de nascimento?

Aqui entra um dos assuntos preferidos da internet: o filho mais velho responsável, o filho do meio esquecido e o caçula mimado. É uma explicação atraente porque parece organizar rapidamente uma coisa muito complexa. Alfred Adler foi um dos autores que deu importância à posição ocupada pela criança dentro da família, mas essa ideia foi simplificada ao longo do tempo até virar, muitas vezes, quase um teste de personalidade.

Pesquisas maiores não sustentam a ideia de que simplesmente nascer em primeiro, segundo ou terceiro lugar determine traços amplos da personalidade. Um estudo com mais de 20 mil participantes, por exemplo, não encontrou aqueles padrões clássicos atribuídos à ordem de nascimento, embora tenha identificado pequenos efeitos relacionados à inteligência (Rohrer, Egloff & Schmukle, 2015). Isso não significa que a posição entre irmãos seja irrelevante. Significa apenas que ela não funciona como destino. Ser a irmã mais velha pode significar apenas ter nascido antes, ou pode significar cuidar dos irmãos, ser exemplo, não preocupar os pais e assumir responsabilidades cedo demais. Ser o caçula em uma família pode significar receber mais proteção; em outra, pode significar crescer tentando acompanhar irmãos muito mais velhos. Talvez, portanto, seja menos interessante perguntar “o que acontece com todo filho mais velho?” e mais interessante perguntar “o que significou ser o filho mais velho nesta família?”

O que fica quando a infância passa

Esses lugares familiares não desaparecem necessariamente quando os irmãos crescem. Às vezes eles continuam aparecendo em outras relações. A pessoa que sempre foi a mediadora da família pode se sentir responsável por resolver qualquer conflito. A que nunca dava trabalho pode ter dificuldade de mostrar que não está bem. Quem cresceu ouvindo que era “dramático” pode passar anos desconfiando dos próprios sentimentos. Quem sempre foi muito independente pode se sentir desconfortável quando precisa depender de alguém.

Isso não quer dizer que tudo sobre uma pessoa possa ser explicado pela relação com a família ou com os irmãos. Seria uma simplificação tão grande quanto dizer que a personalidade é definida pela ordem de nascimento. Temperamento, genética, cultura, amizades, relações amorosas, experiências escolares e muitos outros fatores também participam dessa construção. Mas olhar para os lugares que ocupamos em casa pode ajudar a entender por que certas formas de funcionar parecem tão automáticas na vida adulta.

Talvez seja justamente por isso que dois irmãos consigam olhar para a mesma infância e contar histórias tão diferentes. Um pode dizer “nossos pais sempre estiveram presentes” e o outro responder “eu me sentia sozinho naquela casa”. As duas experiências podem coexistir. A memória familiar não é uma gravação objetiva dos fatos; ela também passa pela idade que tínhamos, pelo que entendíamos naquela época, pelo lugar que ocupávamos e pela relação que construímos com cada pessoa. Em vez de tentar descobrir quem se lembra certo, muitas vezes é mais interessante perguntar como cada um viveu aquilo.

No fim, talvez ninguém tenha sido criado exatamente igual — e isso não significa necessariamente que os pais falharam. Crianças diferentes precisam de coisas diferentes. O cuidado está em perceber quando individualizar começa a virar comparar, quando uma característica vira rótulo e quando um papel familiar começa a deixar pouco espaço para aquela criança ser outra coisa.

Talvez a pergunta mais interessante não seja “qual filho você era?”, mas qual lugar você aprendeu a ocupar dentro da sua família — e quanto desse lugar ainda aparece na sua vida hoje?

Para assistir depois: *Adoráveis Mulheres*

*Adoráveis Mulheres*, dirigido por Greta Gerwig, é um filme especialmente interessante para observar relações entre irmãs porque não transforma esse vínculo em algo idealizado. Jo, Meg, Amy e Beth se amam, mas também competem, se irritam, sentem ciúme, se admiram, se machucam e tentam encontrar uma identidade própria enquanto crescem tão próximas umas das outras.

O mais interessante é perceber que nenhuma delas vive aquela família do mesmo jeito. Cada uma ocupa um espaço diferente, deseja coisas diferentes e constrói uma relação particular com as mesmas pessoas. Talvez seja justamente isso que o filme mostra tão bem: pertencer à mesma família não significa experimentar aquela família da mesma maneira. Se assistir, vale prestar atenção menos em “qual irmã parece comigo?” e mais em quem cada uma sente que pode ser — e quem sente que precisa ser — dentro daquela família.

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Larissa Benites Lima
Psicóloga · CRP 06/227003

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