Psiconites — Larissa Benites

Meu filho está sofrendo bullying e não conta? Como identificar os sinais e ajudar

Nem toda criança ou adolescente consegue contar o que acontece na escola. Entenda os sinais de bullying, por que alguns filhos se calam e como oferecer ajuda.

Imagem ilustrativa relacionada à adolescência e à saúde emocional

“Como foi a escola hoje?”

“Normal.”

A resposta vem rápida. Seu filho deixa a mochila no canto, vai brincar, mexer no celular ou fazer qualquer outra coisa. Para quem perguntou, parece que está tudo bem.

Mas e quando não está?

Às vezes, aquela mesma criança ou adolescente que diz que o dia foi normal está sendo excluído pelos colegas, ouvindo comentários sobre a própria aparência ou tentando descobrir como não virar motivo de piada no dia seguinte.

E, mesmo assim, não conta.

Não necessariamente porque não confia nos pais. Pode ser porque sente vergonha, tem medo de piorar a situação ou acredita que precisa resolver aquilo sozinho.

O silêncio nem sempre significa ausência de sofrimento. Às vezes, significa que seu filho ainda não encontrou uma forma segura de falar sobre ele.

O bullying é mais comum do que imaginamos?

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE em 2024 e divulgada em março de 2026, mostrou que 27,2% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relataram sofrer bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em 2019, eram 23%. O levantamento também apontou que 12,7% dos adolescentes relataram bullying nas redes sociais.

Esses números não significam que toda dificuldade na escola seja bullying. Eles mostram, porém, que o problema faz parte da realidade de muitas famílias e merece atenção.

Outro aspecto importante é que nem toda situação de bullying chega ao conhecimento dos adultos. Em um estudo de 2024 publicado na revista Teaching and Teacher Education, Bjereld, Thornberg e Hong observaram que a qualidade da relação entre estudante e professor influenciava a disposição para contar o que estava acontecendo.

Não basta dizer “se acontecer alguma coisa, me conte”. É preciso construir relações em que falar seja possível e seguro.

Afinal, o que é bullying e o que não é?

Nem toda discussão ou desentendimento entre colegas é bullying.

Conflitos pontuais podem acontecer entre crianças e adolescentes, inclusive entre amigos. O bullying envolve comportamentos agressivos intencionais e repetidos, ou com probabilidade de se repetir, em uma relação marcada por desequilíbrio de poder. Esse desequilíbrio pode ser físico, social ou ligado à posição de alguém dentro do grupo.

Ele pode se manifestar por meio de apelidos ofensivos, humilhações, ameaças, boatos, agressões, exclusão deliberada e violência em ambientes digitais.

Imagine duas crianças que discutem durante um jogo, ficam irritadas e depois conseguem resolver o conflito. Agora imagine um aluno que é ridicularizado diariamente e evita o recreio porque sabe que será humilhado. São situações diferentes.

Isso não significa ignorar uma agressão isolada. Uma situação não precisa ser classificada como bullying para exigir cuidado e proteção.

Por que algumas crianças e adolescentes sofrem bullying e não contam?

Quando pensamos em alguém sofrendo, parece natural imaginar que procuraria um adulto de confiança. Mas pedir ajuda pode ser muito mais difícil do que parece.

Um estudo publicado em 2026 no International Journal of Bullying Prevention analisou relatos retrospectivos de 108 jovens adultos sobre por que, na vida escolar, não contaram aos professores que sofriam bullying. Os pesquisadores identificaram motivos como vergonha, medo de serem vistos como delatores, dúvidas sobre a ajuda dos adultos e desejo de resolver tudo sozinhos.

Como se tratou de relatos retrospectivos, os resultados ajudam a compreender possibilidades, não a prever o comportamento de uma criança específica.

Medo de que a situação piore

A criança pode imaginar que os colegas vão descobrir que ela contou e intensificar as provocações. Talvez já tenha visto alguém ser chamado de “dedo-duro” por pedir ajuda. Nesse contexto, o silêncio pode parecer uma maneira de se proteger.

Vergonha do que está acontecendo

Ser humilhado pode afetar a forma como crianças e adolescentes enxergam a si mesmos. A vergonha pode estar relacionada aos apelidos, à aparência, à exclusão ou à sensação de não conseguir se defender. Falar sobre o assunto significaria expor justamente aquilo que causa sofrimento.

Receio da reação dos pais

Uma criança finalmente encontra coragem para contar que está sendo provocada, mas imagina respostas como:

“Por que você não se defendeu?”

“Você precisa ser mais forte.”

“Eu vou lá resolver isso agora!”

Mesmo quando vêm da preocupação, essas frases podem assustar. Alguns filhos temem ser expostos na escola ou perder o controle sobre o que acontecerá depois da conversa.

Achar que precisa dar conta sozinho

Algumas crianças aprendem que ser forte é não demonstrar tristeza; alguns adolescentes receiam parecer frágeis diante dos colegas. Tentam ignorar, mudar de comportamento ou agradar para serem aceitos.

Pedir ajuda não deveria ser visto como incapacidade de se defender. É uma forma legítima de buscar proteção.

Quais sinais podem indicar que meu filho sofre bullying?

Não existe um comportamento que, sozinho, confirme bullying. Mas mudanças persistentes merecem ser compreendidas dentro do contexto em que aparecem.

Observe, por exemplo:

Uma criança pode seguir indo à escola e, ainda assim, estar sofrendo. Um adolescente pode aparentar tranquilidade durante o dia e ficar muito abalado à noite, após receber mensagens.

Esses sinais também podem ocorrer por outros motivos, como dificuldades de aprendizagem, ansiedade, mudanças familiares ou problemas de saúde. Sintomas físicos persistentes devem ser avaliados por um profissional de saúde.

A pergunta mais útil não costuma ser “qual é o sinal de bullying?”, mas “o que mudou na vida do meu filho e o que pode estar acontecendo nos lugares que ele frequenta?”

Se a escola se tornou um lugar especialmente difícil, vale ler também: Meu filho adolescente não quer ir à escola: o que pode estar acontecendo?.

Como conversar sem transformar tudo em um interrogatório?

Quando os responsáveis suspeitam de alguma coisa, é compreensível querer descobrir tudo imediatamente. Mas uma sequência de perguntas pode fazer a criança ou o adolescente se fechar ainda mais.

Em vez de começar com “quem fez isso?” ou “por que você não me contou?”, tente compartilhar uma observação:

“Percebi que você está mais quieto quando volta da escola. Não sei se aconteceu alguma coisa, mas queria entender como você está.”

“Você parece menos animado para encontrar seus colegas. Mudou algo por lá?”

“Tem alguma coisa que você fica com medo de me contar porque acha que vou ficar bravo ou preocupado?”

O objetivo da primeira conversa não é conseguir um relato perfeito. É mostrar que existe espaço para falar, inclusive sobre assuntos difíceis.

Se seu filho contar alguma coisa, procure escutar até o final antes de aconselhar ou decidir o que fazer. Algumas respostas possíveis são:

Se ele ainda não quiser falar, mantenha a disponibilidade e busque outras fontes de informação de maneira cuidadosa. Respeitar o ritmo de alguém não significa deixar de agir diante de sinais de violência.

No caso de adolescentes, é especialmente importante explicar o que será feito e, sempre que possível, incluí-los nas decisões que dizem respeito a eles. Isso ajuda a preservar a confiança e a autonomia sem transferir a responsabilidade de proteção.

Para aprofundar essa aproximação, veja Meu adolescente não conversa comigo: o que pode estar acontecendo?.

Meu filho contou que sofre bullying. O que devo fazer?

O primeiro passo é acolher o relato e deixar claro que ele não é culpado pela violência que sofreu. O segundo é transformar o acolhimento em proteção concreta.

  1. Escute sem minimizar. Evite dizer “é brincadeira”, “não liga” ou “isso acontece com todo mundo”. Procure compreender como ele viveu a situação.
  2. Entenda o contexto sem pressionar. Pergunte quando e onde os episódios acontecem, quem costuma estar presente e quais momentos parecem mais difíceis.
  3. Converse reservadamente com a escola. Procure coordenação ou direção, descreva os fatos e solicite medidas específicas de proteção, responsáveis e acompanhamento.
  4. Considere a opinião da criança ou do adolescente. Pergunte quais providências lhe causam medo e como a intervenção pode ser organizada sem exposição desnecessária.
  5. Acompanhe o que acontece depois. Não basta realizar uma reunião. Verifique se os episódios cessaram e se seu filho está recuperando a sensação de segurança.

Se houver ofensas ou ameaças por mensagens, preserve registros relevantes e evite republicar conteúdos humilhantes. Não incentive revanche física nem exponha os envolvidos em grupos de responsáveis.

Quando o problema persiste ou a instituição não responde adequadamente, pode ser necessário procurar a rede de proteção, incluindo o Conselho Tutelar. Violações de direitos podem ser comunicadas ao Disque 100. Em situações de ameaça ou risco imediato, busque proteção urgente.

Qual é o papel da escola?

Uma criança não deveria precisar desenvolver estratégias individuais para suportar um ambiente que continua permitindo sua humilhação.

A escola tem papel essencial na prevenção, na escuta dos relatos e na interrupção da violência. A Lei nº 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, e a Lei nº 14.811/2024 introduziu a tipificação penal do bullying e do cyberbullying.

Mas o enfrentamento não se resume a punições. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2021, de Gaffney, Ttofi e Farrington, concluiu que programas escolares de prevenção podem reduzir a prática de bullying e a vitimização, embora os resultados variem entre as intervenções.

É importante que a escola tenha adultos de referência, supervisão nos espaços em que as agressões ocorrem, formas seguras de relatar incidentes e acompanhamento das medidas adotadas.

Também não se deve tratar automaticamente uma situação de intimidação como um conflito entre duas pessoas com o mesmo poder de escolha. Obrigar a vítima a se reconciliar ou confrontar quem a agride pode aumentar sua exposição.

O bullying pode afetar a saúde mental?

Sim. As consequências podem ultrapassar o momento em que as provocações acontecem.

Uma revisão de estudos longitudinais publicada em 2025, de Giuliani, Petruccelli e D’Urso, encontrou associações entre vitimização repetida por colegas e dificuldades posteriores de saúde mental, incluindo sintomas de ansiedade e depressão.

Isso não significa que toda criança ou adolescente que sofreu bullying desenvolverá um transtorno. O impacto varia conforme intensidade, duração, apoio disponível e outros fatores.

Também não é necessário esperar por um diagnóstico para levar o sofrimento a sério.

Não precisamos esperar que alguém deixe de querer ir à escola para reconhecer que precisa de proteção.

Como a psicoterapia infantil e para adolescentes pode ajudar?

Nem sempre crianças e adolescentes conseguem explicar em palavras aquilo que estão vivendo. Às vezes, o sofrimento aparece no corpo, no comportamento, nas relações ou na forma como passam a enxergar a si mesmos.

A psicoterapia pode oferecer um espaço de escuta para compreender essas experiências, reconhecer emoções, recuperar a confiança e desenvolver recursos para pedir ajuda e lidar com as consequências do que aconteceu.

Na psicoterapia infantil, o trabalho pode incluir jogos, histórias, desenhos e atividades lúdicas adequadas à idade e ao desenvolvimento. Não é necessário que a criança saiba explicar tudo para começar a ser ouvida.

Na psicoterapia para adolescentes, o acompanhamento considera a busca por autonomia, as amizades, a identidade, a autoestima, o sentimento de pertencimento e as relações familiares e escolares. A escuta respeita a experiência e a privacidade do adolescente.

Em ambos os casos, pode haver orientação aos responsáveis e, quando apropriado, diálogo com a escola, respeitando o sigilo profissional e as informações estritamente necessárias.

É fundamental deixar claro: a terapia não substitui a responsabilidade da escola e dos adultos de interromper o bullying. O objetivo não é ensinar alguém a suportar humilhações, mas cuidar das repercussões emocionais enquanto medidas de proteção são tomadas.

Se houver automutilação, falas sobre morte, desesperança intensa ou risco de suicídio, busque avaliação imediata. Em situação de perigo iminente, procure um serviço de urgência ou acione o SAMU pelo 192.

Antes de perguntar por que seu filho não contou, pense no que ele pode ter sentido

Quando uma criança ou um adolescente esconde uma experiência dolorosa, é comum que a família se pergunte: “Por que não confiou em mim?”

Mas talvez essa não seja a pergunta mais importante.

O silêncio pode ter relação com vergonha, medo, insegurança ou uma tentativa de evitar mais problemas. Mesmo em famílias cuidadosas, determinados assuntos podem ser muito difíceis de contar.

Acolher não significa ter todas as respostas, nem resolver tudo no mesmo dia. Significa demonstrar, com palavras e atitudes, que seu filho não precisa enfrentar aquela situação sozinho.

A infância e a adolescência não deveriam ser fases em que alguém aprende a suportar humilhações em silêncio para conseguir pertencer.

Perguntas frequentes

Como saber se meu filho sofre bullying mesmo dizendo que está tudo bem?

Observe mudanças persistentes na relação com a escola, nas amizades, no humor, no sono e no uso do celular. Nenhum sinal isolado confirma bullying; conversas cuidadosas e informações da escola ajudam a compreender o contexto.

Devo conversar com a escola mesmo que meu filho não queira?

Quando há suspeita consistente de violência, os adultos precisam garantir proteção. Sempre que possível, explique o que será feito, acolha os receios dele e peça à escola uma abordagem que evite exposição desnecessária.

O bullying pode causar ansiedade?

A vitimização por colegas está associada a maior risco de dificuldades emocionais, incluindo ansiedade, mas isso não significa que toda criança ou adolescente que sofre bullying desenvolverá um transtorno.

E se a escola disser que era só brincadeira?

Descreva os episódios, solicite providências concretas, registre os contatos e acompanhe a resposta. Se a violência continuar, procure os canais competentes de proteção.

A psicoterapia é indicada para crianças e adolescentes?

Pode ser indicada quando há sofrimento persistente, insegurança, isolamento ou mudanças importantes na rotina. Uma avaliação individual ajuda a compreender as necessidades de cada criança ou adolescente.

Conheça os atendimentos do PsicoNites

Se você percebe mudanças no comportamento do seu filho e não sabe como ajudá-lo, procurar orientação psicológica pode ser um primeiro passo para compreender o que está acontecendo.

No PsicoNites, o acompanhamento considera a história, as relações, o momento do desenvolvimento e as necessidades de cada pessoa.

Atendimentos presenciais em São Bernardo do Campo (ABC Paulista) e online, quando adequados à idade e às condições do atendimento.

Larissa Benites Lima — Psicóloga | CRP 06/227003

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação psicológica individual.

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Larissa Benites Lima
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